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Coleção "Brasil Imperial" na Folha de São Paulo

18/04/2010 - São Paulo, domingo, 18 de abril de 2010

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+(L)ivros

Enciclopédia do Império

Em três volumes, "O Brasil Imperial" reflete avanços nas pesquisas sobre a história brasileira no século 19

MARCELO COELHO
COLUNISTA DA FOLHA

Sucessos de vendas como "1808", de Laurentino Gomes [Ed. Planeta, 2007], ou os menos recentes "As Barbas do Imperador", de Lilia Moritz Schwarcz, e "Mauá - O Empresário do Império", de Jorge Caldeira [ambos publicados pela Companhia das Letras nos anos 1990], tornaram a história do Brasil no século 19 mais acessível e interessante para o grande público.
Apesar de sua linguagem clara, sem vícios acadêmicos, os três grossos volumes de "O Brasil Imperial" dirigem-se a outro tipo de leitor. Mais de 30 pesquisadores contribuem com ensaios sobre temas bastante específicos, pressupondo que ninguém se assuste, por exemplo, com análises a respeito da política indigenista estabelecida pelo Regulamento de 1845 ou considerações sobre as modificações no calendário das comemorações cívicas durante o período da Regência [1831-40].
Numa coletânea de ensaios tão enciclopédica como esta (e, de resto, muito bem organizada), perde-se naturalmente uma visão autoral unificada, capaz de dar conta, num fôlego só, de toda a história do período. Refletem-se contudo, como observa [o historiador] José Murilo de Carvalho na apresentação da obra, os notáveis avanços nas pesquisas universitárias sobre o Brasil imperial -tanto na variedade dos temas abordados quanto na "horizontalidade" e na "verticalidade", por assim dizer, da visada analítica.
"Verticalidade" porque o interesse de muitos pesquisadores se aprofunda na minúcia da documentação.
Rafael Marquese e Dale Tomich estudam a cafeicultura no Vale do Paraíba contrastando sua alta produtividade, para a época, com os números vigentes nas lavouras de Cuba e de Java [na Indonésia]. O intuito é explicar de que modo o Brasil passou, em poucas décadas, à posição de maior produtor mundial de café.

Descentralização
Para falar da história da imigração no Sul do Brasil, João Klug recorre a escritos de líderes da comunidade alemã, como Hermann Blumenau (em sua correspondência com o cônsul-geral da Prússia no Brasil). Klug é professor na Universidade Federal de Santa Catarina -e um dos aspectos marcantes desta coleção, além do aprofundamento "vertical" no detalhe dos acontecimentos, é o de sua latitude geográfica, no que diz respeito às instituições universitárias a que pertencem vários dos pesquisadores.
Magda Ricci trabalha na Universidade Federal do Pará, podendo levantar os antecedentes da Revolta dos Cabanos [1835-40] com admirável senso do episódio significativo e especial atenção para as questões de identidade regional.
Também contrariando as ilusões de óptica de uma historiografia produzida apenas a partir do Rio de Janeiro e de São Paulo, Eduardo França Paiva (Universidade Federal de Minas Gerais) nos adverte para o fato de que a economia mineira não "desapareceu" depois de encerrado o ciclo do ouro.
Indo mais longe na descentralização geográfica, Gabriela Ferreira (Universidade Federal de São Paulo) retoma a história das relações entre Brasil, Argentina e Uruguai, com uma segura análise das fricções políticas internas de cada país, para narrar a derrota das pretensões imperiais brasileiras na chamada Província Cisplatina (o Uruguai de hoje).

Franjas e interstícios
Do ponto de vista dos temas abordados, a coletânea não se limita aos pontos de parada inevitáveis da história imperial -a abolição do tráfico, a Guerra do Paraguai, as crises da Regência-, mas também revela um aumento do interesse em pesquisar as "franjas", por assim dizer, e os interstícios do sistema social da época.
O papel dos negros libertos e dos mulatos, por exemplo, é ressaltado em diversos trabalhos, que, aliás, se empenham em dissolver a imagem, ainda presente, de uma espécie de "inexistência de povo" no século 19 brasileiro.
Já a questão do ambiente é tratada por José Augusto Pádua num dos ensaios mais fascinantes do livro. Para quem se contentou com a clássica imagem do Império brasileiro transmitida no ensino médio, na qual liberais e conservadores eram a mesma coisa, dominando uma economia baseada apenas na exportação de café, com base no latifúndio e no trabalho escravo, esta coletânea reserva não poucas surpresas.

Matizes
As duras discussões parlamentares em torno das leis que precederam a Abolição (como a dos Sexagenários e a do Ventre Livre) estão longe de sugerir que aquelas iniciativas eram puramente cosméticas, "para inglês ver".
Mesmo as principais correntes intelectuais e ideológicas do período -que nos acostumamos a ver como excentricidades a um passo do ridículo- surgem com muito mais matizes, complexidades e coerências do que se pensa, no artigo de Leonardo Affonso de Miranda Pereira.
Embora o foco cerrado na documentação específica confira a "O Brasil Imperial" um aspecto de conjunto de monografias, é de justiça assinalar que nenhum dos autores perde de vista o contexto mais amplo.
Dois trabalhos, pelo menos, fazem essa ligação de modo magistral: o de Vitor Izecksohn sobre a Guerra do Paraguai [1864-70] e o de Ricardo Salles sobre a crise da escravidão e suas relações com o ocaso do Partido Conservador.
Sem perder o senso da minúcia e do rigor, ensaios como esses podem ser lidos com grande interesse pelo público não especializado -a que a coletânea, de modo geral, não se dirige preferencialmente.

O BRASIL IMPERIAL
Organização: Keila Grinberg e Ricardo Salles
Editora: Civilização Brasileira (tel. 0/ xx/21/2585-2000)
Quanto: R$ 59,90 cada um dos três volumes

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